domingo, 17 de junho de 2012

Festa na escola


Eu tinha medo de cantar parabéns em inglês. Quando fui au pair nos Estados Unidos, foi aniversário do menininho de três anos que eu cuidava. Chamaram as crianças para o happy birthday acompanhados de uma moça ao violão.

Empolgada, comecei a bater palmas. Mas não tinha palmas. Todo mundo me olhou com cara de interrogação. A música não vinha com palmas nem empolgação. Era xoxa, coitada. Eram uns parabéns à la bossa nova. Bonito e triste. Maior decepção.

Então, quando a professora do menino apareceu com um violão na hora dos parabéns, pensei: ai, meu Deus, lá vem o happy birthday bossa nova. Mas as crianças bateram palmas, gritaram, choraram, correram e cantaram juntos na hora dos parabéns e de muitas outras músicas que seguiram. Ótimo!



Festinha sem frescuras
Companheiros de aniversário na escola: João e Carl

O violão é nosso!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dois anos de menino


No início, um mês parecia não ter fim. Cada dia era uma vastidão de horas e cada noite, uma imensa prolongação sem descanso de um dia.

Cabia em 24 horas uma profusão de descobertas críveis, e incrivelmente fantásticas.

Mas, à medida que o menino crescia, o tempo acelerava. Como ventania, levou menino, mãe e pai.

Foi num arrastado vagar de tempo que o menino aprendeu a engatinhar. No minuto seguinte, falar, andar.

Num átimo, correram tempo e menino. Foi o tempo que cresceu o menino ou foi o menino que apressou o tempo?


quarta-feira, 13 de junho de 2012

De partida

Descobrimos que vamos embora em agosto. Será o fim de todas as caras felizes e corações abertos ao menino encapetado?

Vou te contar, não é desculpa de mãe incompetente - ok, talvez seja - mas eu não consigo ser uma mãe séria, firme no objetivo de criar um serzinho sensível à cara feia alheia. Mas aqui não tem cara feia! Meu deus, como faz falta uma cara feia, outra, que não seja a repetida e completamente ineficaz da mãe.

Na livraria, se o menino embirrece e numa tacada lança bonitos livros super bem-enfileirados ao chão, vem logo alguém feliz-contente arrumar tudo. O menino grita, outro acha graça. O menino faz da birra uma grande atração. Podia cobrar ingresso, mas pode pegar mal. É assim na livraria, no restaurante, supermercado e em qualquer outro lugar enfumaçado que levemos a criaturinha. Uma festa.

O negócio é que vamos deixar a casa poluída onde todo dia é dia das crianças. Partiremos rumo à terra da baguete em que a fraternidade é lema do qual as crianças estão excluídas. Menino caiu no chão? Dá-lhe uma boa bofetada que aprende a ficar de pé, oras. Menino vai a restaurante com os pais? Que absurdo! Porque não deixaram essa coisa trancafiada? Ele grita, ri alto? Tragédia!

Muitas caras feias e poucos corações abertos é o que me disseram. Acreditei e fiquei com medo. Vixe, maria, agora terás todas as caras feias a seu favor e nenhuma Lia. Conseguirás, maria, retrair todo e qualquer comportamento completamente aceitável do pequeno? Será um total fracasso?

Será um total sucesso! Lugares de crianças, para crianças, sem cigarro e com muita grama. E neve no Natal. Talvez só um poquinho de neve, mas tudo bem. Muito frio e dias ensolarados quando não tiver nem sombra de sol. Escola pública. Praças públicas. Parques públicos. Bibliotecas públicas. Museus a céu aberto. Grama, grama, grama, grama com gelo, com sereno e com sol. Nenhuma cara feia do mundo entristeceria a minha felicidade nesse momento. Que venham todas as caras feias dos caras carrancudos do velho mundo e eu lhes devolvo o meu sorriso. Pelo menos hoje.

Menino encapetado, aí vamos nós.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Só sei contar sozinho

Ler é o maior barato
Hoje tive uma reunião com a professora do João, miss Vanessa. Quinze minutos de uma conversa boa sobre as habilidades e dificuldades do menino ao longo de um ano na escolinha. Letras, números, formas, jogos são o seu forte. Socialização, interação, o seu fraco. Ele adora as letrinhas, as palavras, mas não de usá-las no trato social e concentra toda a sua atenção em qualquer atividade de raciocínio que envolva o menor número possível de pessoas, especialmente desconhecidas.

O desenvolvimento do letramento do menino impressiona mais que eu imaginava. Toda a escola, professora, diretora, porteiro reconhecem o menino pelas facilidades com os símbolos: 'Djoan, que número é esse?", pergunta o guarda da porta da escola. "Depois do A vem o...?, pergunta outra professora, da classe twadler, que disse estar muito triste por saber que João não frequentará sua turma em agosto, já que iremos embora. Ela estava ansiosa por um aluno que se interessa tão naturalmente por tudo que ela tenta ensinar.

Segundo a professora atual do menino, Vanessa, em dez anos de carreira, é a primeira vez que ela percebe desenvolvimento tão precoce quanto ao letramento em uma criança menor de dois anos. Ele já conhece todas as letras do alfabeto, maiúsculas, minúsculas, de forma ou cursiva, em português e em inglês. Ele sabe soletrar e ler o próprio nome. Tem noção de que o som de cada letrinha difere de acordo com o símbolo que a representa e com a língua falada. Ele sabe que o a pode ter som de ei em inglês e de apenas a em português. Ele conhece os números e já entendeu a lógica que rege a nomenclatura deles. Em muitas ocasiões, diz quarenta e dez ou trinta e dez para se referir às quantidades de dezenas representadas por 50 ou 40 respectivamente. Ele entende quantidade e já mostra que sabe contar. E conta (não apenas decorou os nomes dos números) com extrema facilidade quantidades pequenas - pelo menos até dez. 

São conceitos muito abstratos para uma criança tão pequena. Segundo Vanessa, crianças de três, quatro, cinco anos estão começando a alcançar o nível em que o menino está agora, antes de completar dois anos. Ela apontou ainda que o traço de desenho dele também é mais avançado que o da média. Ele consegue desenhar linhas paralelas e até cobrir pontilhados simples - coisa que os colegas ainda não fazem (eu nem sabia disso, achava que era normal). Ele até tenta desenhar letras. Em um dos trabalhos de desenho dele feito na escola, percebi o comentário 'Uau' registrado em caneta pela professora que me explicou o motivo da empolgação: o menino tinha feito algo parecido com um oito e dito na ocasião: eight! Ela acha que ele desenhou deliberadamente o número. Se for isso mesmo, não demora nada e ele já está escrevendo e lendo. Eu realmente não duvido. 

Esse avanço todo também nos impressiona. O mais interessante é que nós não o estimulamos. Quer dizer, não ficamos inventando atividades ou comprando coisas que possam chamar a atenção dele para que ele aprenda a ler e a contar mais rápido que a média das crianças na mesma idade.  O que notamos é que ele se estimula o tempo todo. E nós não o freamos, não o proibimos de fazer o que realmente sente prazer.

Todas as suas brincadeiras envolvem números, letras, formas. Ele prefere as músicas que falam disso, os vídeos, os apps, os livros e vê números, letras, formas nos lugares mais inusitados. Ele adora ler. Um dos poucos passeios em que ele fica tranquilo é quando vamos à livraria. Em casa, ele tem o seu cantinho de livros e fica lá, conversando com as letras, lendo do jeito dele, aprendendo tudo e se divertindo. 

Para convencê-lo a descer ao parquinho do prédio, digo que vamos primeiro brincar de contar os degraus das escadas que levam até lá e ele vai contente. Na hora de brincar de escorregador, ele quer subir e descer muitas vezes para poder contar quantas escorregou. 

Dá orgulho de ver como ele se interessa por tanta coisa que consideramos importante como ler, escrever, desenhar, pintar, contar. Mas também dá uma certa angústia em não saber lidar muito bem com isso e em conjecturar se afinal todas essas 'vantagens' em relação a outras crianças poderiam por fim distanciá-lo ainda mais do convívio social que parece amedrontá-lo tanto. Acho que no fundo faltam primos, irmãos, tios, tias, avós para nos ajudar a brincar de contar degraus.

Em tempo: depois de ter publicado esse texto, descobri que o menino já está conseguindo desenhar algumas letras. Perceba, no quadro magnético registrado abaixo, o A bem feitinho, duas letra S, um X, algo como um C e o número 2 no cantinho esquerdo: