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| Ler é o maior barato |
Hoje tive uma reunião com a professora do João, miss Vanessa. Quinze minutos de uma conversa boa sobre as habilidades e dificuldades do menino ao longo de um ano na escolinha. Letras, números, formas, jogos são o seu forte. Socialização, interação, o seu fraco. Ele adora as letrinhas, as palavras, mas não de usá-las no trato social e concentra toda a sua atenção em qualquer atividade de raciocínio que envolva o menor número possível de pessoas, especialmente desconhecidas.
O desenvolvimento do letramento do menino impressiona mais que eu imaginava. Toda a escola, professora, diretora, porteiro reconhecem o menino pelas facilidades com os símbolos: 'Djoan, que número é esse?", pergunta o guarda da porta da escola. "Depois do A vem o...?, pergunta outra professora, da classe twadler, que disse estar muito triste por saber que João não frequentará sua turma em agosto, já que iremos embora. Ela estava ansiosa por um aluno que se interessa tão naturalmente por tudo que ela tenta ensinar.
Segundo a professora atual do menino, Vanessa, em dez anos de carreira, é a primeira vez que ela percebe desenvolvimento tão precoce quanto ao letramento em uma criança menor de dois anos. Ele já conhece todas as letras do alfabeto, maiúsculas, minúsculas, de forma ou cursiva, em português e em inglês. Ele sabe soletrar e ler o próprio nome. Tem noção de que o som de cada letrinha difere de acordo com o símbolo que a representa e com a língua falada. Ele sabe que o a pode ter som de ei em inglês e de apenas a em português. Ele conhece os números e já entendeu a lógica que rege a nomenclatura deles. Em muitas ocasiões, diz quarenta e dez ou trinta e dez para se referir às quantidades de dezenas representadas por 50 ou 40 respectivamente. Ele entende quantidade e já mostra que sabe contar. E conta (não apenas decorou os nomes dos números) com extrema facilidade quantidades pequenas - pelo menos até dez.
São conceitos muito abstratos para uma criança tão pequena. Segundo Vanessa, crianças de três, quatro, cinco anos estão começando a alcançar o nível em que o menino está agora, antes de completar dois anos. Ela apontou ainda que o traço de desenho dele também é mais avançado que o da média. Ele consegue desenhar linhas paralelas e até cobrir pontilhados simples - coisa que os colegas ainda não fazem (eu nem sabia disso, achava que era normal). Ele até tenta desenhar letras. Em um dos trabalhos de desenho dele feito na escola, percebi o comentário 'Uau' registrado em caneta pela professora que me explicou o motivo da empolgação: o menino tinha feito algo parecido com um oito e dito na ocasião: eight! Ela acha que ele desenhou deliberadamente o número. Se for isso mesmo, não demora nada e ele já está escrevendo e lendo. Eu realmente não duvido.
Esse avanço todo também nos impressiona. O mais interessante é que nós não o estimulamos. Quer dizer, não ficamos inventando atividades ou comprando coisas que possam chamar a atenção dele para que ele aprenda a ler e a contar mais rápido que a média das crianças na mesma idade. O que notamos é que ele se estimula o tempo todo. E nós não o freamos, não o proibimos de fazer o que realmente sente prazer.
Todas as suas brincadeiras envolvem números, letras, formas. Ele prefere as músicas que falam disso, os vídeos, os apps, os livros e vê números, letras, formas nos lugares mais inusitados. Ele adora ler. Um dos poucos passeios em que ele fica tranquilo é quando vamos à livraria. Em casa, ele tem o seu cantinho de livros e fica lá, conversando com as letras, lendo do jeito dele, aprendendo tudo e se divertindo.
Para convencê-lo a descer ao parquinho do prédio, digo que vamos primeiro brincar de contar os degraus das escadas que levam até lá e ele vai contente. Na hora de brincar de escorregador, ele quer subir e descer muitas vezes para poder contar quantas escorregou.
Dá orgulho de ver como ele se interessa por tanta coisa que consideramos importante como ler, escrever, desenhar, pintar, contar. Mas também dá uma certa angústia em não saber lidar muito bem com isso e em conjecturar se afinal todas essas 'vantagens' em relação a outras crianças poderiam por fim distanciá-lo ainda mais do convívio social que parece amedrontá-lo tanto. Acho que no fundo faltam primos, irmãos, tios, tias, avós para nos ajudar a brincar de contar degraus.
Em tempo: depois de ter publicado esse texto, descobri que o menino já está conseguindo desenhar algumas letras. Perceba, no quadro magnético registrado abaixo, o A bem feitinho, duas letra S, um X, algo como um C e o número 2 no cantinho esquerdo: